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Crônicas e Fotos

de São Joaquim da Barra

TONHO DA PINTA, UM NUPORANGUENSE EM SÃO JOAQUIM

Em meados do ano de 1901, numa curva, um trole surgiu aos solavancos, pela estrada que ligava Nuporanga a São Joaquim. Nele ia um homem de meia idade, que tinha uma pinta peluda, parecendo um carrapato grudado no rosto. Pensativo com um olhar vago, ia remoendo idéias, como alguém procurando, na cor vermelha do chão e nos enormes barrancos à sua volta, um rumo à sua vida. Ia pensando na linda e animada festa junina havida na fazenda Barrinha do Major Cardoso, há duas semanas. O acolhimento gentil dos filhos do Major e dona Presciliana, seus dois jovens filhos, Aristides, Alcebíades, Abilio e Assuero, bem como suas três filhas recém casadas: Anézia, Alice e Alzira. Foi ali realizada com entusiasmo a segunda festa junina do novo século que nascia. Nessa  festa, Tonho da pinta ouvira o médico baiano Dr.José Esmeraldo de Oliveira e os farmacêuticos Caetano Gramani e José Martins de Araújo, conversando sobre a estrada de ferro que já chegara  a Sales Oliveira e em breve estaria passando pelo povoado de São Joaquim.

   Tonho estava ansioso para chegar àquela povoação, tão comentada por tantos. Por causa da conversa ouvida na festa, estava ele a caminho do arraial de São Joaquim, pois comprara nele, um sítio, perto das terras do senhor Manoel Gouveia de Lima.

   Estava quase chegando, a ansiedade era grande, pois acabara de passar pelo córrego Olaria e divisou á direita a demarcação por onde ia passar o trem de ferro. A povoação deveria estar logo ali, após aquela subida de uns quinhentos metros. De fato, logo apareceram alguns casebres e pelo caminho via-se alguns carros de boi parados, servindo de morada para viajores de menos posse, que vinham procurar sucesso naquela cidade em embrião.

   Assim foi chegando, após a subida, atravessou o local por onde ia passar a estrada de ferro e à sua direita viu os alicerces da Estação da Mogiana.         Mais adiante, virando à esquerda , uns trezentos metros na frente,perto de duas palmeiras, enxergou a famosa Casa Damásio. Uns cem metros antes estava a outra venda do senhor Chico Vidal e as casas comerciais de José Marcelino da Silva e Lucas Garcia.Todas elas beirando a estrada. Percebia estar se delineando uma rua em direção à Estação a ser construída. Era uma cidade nascendo. Na conversa com os donos da venda e dos comerciantes, notava-se um entusiasmo generalizado.

   Tudo isso ia enchendo o coração do Tonho de muita esperança. Lá em Nuporanga as coisas eram muito diferentes. Os nuporanguenses por verem sua cidade afastada do traçado das linhas da estrada de ferro, sentiam-se cada vez mais preocupados, começando  a perceber estarem contados os seus dias de progresso.

   Assim como ele, vários moradores de Nuporanga estavam deixando a cidade.

FILHOS DO MAJOR CARDOSO QUE ESTAVAM NA FESTA JUNINA, REFERIDA NESTA CRÔNICA


Abílio Cardoso nascido em 02/02/1881, Faleceu jovem com 23 anos.

 

Assuero Cardoso, nascido em 12/09/1888

 

Aristides Cardoso , nascido em 03/02/1989 e sua esposa Dona Mariquinha

 

 Alcebíades Cardoso, faleceu solteiro

As irmãs gêmeas Alzira e Alice, nascidas em 13/2/1980  No meio o tenente Elias de Paula Machado. Esposo de Alzira.    

TONHO DA PINTA MORANDO EM  SÃO JOAQUIM.

 

 

   Tonho estava comemorando dois anos em São Joaquim. Sentia-se feliz por duas razões, a primeira por estar cercado de vizinhos entusiastas, todos eles, mostrando uma alegria contagiante pelo povoado que estavam ajudando construir; a segunda por não ser mais chamado por Tonho da pinta. Agora era conhecido pelo nome de batismo, Antônio Martins Gonçalves. Aquele dia tinha tirado para ir à cidade. Ali estava ele sentado na cadeira do barbeiro Júlio Lino, na praça, bem em frente da capela, cujos primeiros tijolos tinham sido colocados no início de 1901. Embora a sua construção estivesse bem adiantada, ainda não estava concluída. Antônio esparramado na cadeira, com o rosto todo ensaboado, ouvindo o chiar da navalha cortando sua barba espessa, olhava de soslaio para o barbeiro, que bem sabia ter de tomar cuidado com a sua pinta preta de estimação e ter de deixá-la menos peluda.     Antes de chegar à barbearia passara pela “Pharmácia Central” do Caetano Gramani e vira a casa enorme que o médico dr.Esmeraldo estava acabando de construir.         Estava recordando terem sido eles justamente quem na festa junina do Major Cardoso, tinham, com sua conversa,  despertado nele o desejo de mudar-se.   Com a cara já sem sabão, continuava pensando na estrada pela qual chegara, há dois anos, estrada que se transformara na rua do Comércio.

   No dia 20 de março de 1902 presenciara a inauguração da Estação da Mogiana. Festa com discurso, fogos e muita música, a cargo da banda de Nuporanga.

   Fora feliz em comprar um sítio vizinho do senhor Manoel Gouveia, que era um homem de inteligência privilegiada, sempre preocupado com as coisas do arraial.     Nesse ano de 1902 estava ele, por exemplo, entusiasmado em erguer uma escola e alfabetizar alguns adultos para que pudessem votar na primeira eleição a ser em breve realizada.

   Tonho ia ser aluno do seu vizinho e realizar o grande sonho da sua vida, aprender a ler e escrever. Manoel Gouveia,com seus 34 anos, agora seu professor, lhe contava que seus pais Francisco Antônio Gouveia e Maria Cândida Garcia de Lima eram moradores antigos, aqui radicados antes de 1850. Seu pai foi um dos 51 sócios da famosa fazenda São Joaquim.

    A última e maior felicidade de Tonho foi a de ter encontrado na vizinhança uma morena linda, de pernas roliças e olhar brejeiro, cintura delicada e gênio calmo e carinhoso.

 

 

     

 

 

 

 

                 


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